sexta-feira, 30 de julho de 2010

Pensamentos soltos, bastantes plágios e... Inherit the wind!

Pensamentos soltos, bastantes plágios e... Inherit the wind!

Desde que JS e ML se embrenham e acorrentam mais e mais na floresta da sétima arte, acorrem-me ideias soltas: ficção, realidade, ciência, polémica, etc., avulso, ou concatenadas...
Esta é uma delas, até de madrugada!
A 25 de Setembro de 1866, nascia o brilhante geneticista estadunidense Thomas Hunt Morgan, cujos notáveis trabalhos sobre a genética da mosca do vinagre, “Drosophila sp”, lhe valeram o Prémio Nobel da Medicina em 1933. Morgan reparou que o padrão de hereditariedade da cor dos olhos acompanhava o do cromossoma X. Sugeriu, então, que o gene da cor dos olhos estava ligado a este cromossoma X. As características de Mendel, que aprendemos no liceu estavam – praticamente – achadas. O mapa genético nascia tímido, mas pronto a crescer. Era o começo da sua elaboração.
Como se sabe o ácido desoxirribonucleico (ADN) é constituído fundamentalmente por quatro bases azotadas.
Diariamente, cada célula do corpo perde espontaneamente cerca de 10.000 bases e muitas células estão, nessa altura, em fase de divisão e, portanto, a copiar o seu ADN -replicação do ADN -. Em cada cópia existe a possibilidade de erro. E além destes erros espontâneos, o ADN está constantemente a ser agredido. Estima-se que 80 a 90 por cento de todos os cancros tenham origem em lesões produzidas por estas agressões ao ADN. Se estas, porque são frequentes, continuassem, as mutações aumentariam exponencialmente a probabilidade de se contrair tumores, não existindo mecanismos celulares capazes de corrigir os erros introduzidos. E, aqui, o optimismo é grande. E crescente.
Já lá vai meio século que o modelo da dupla hélice do ADN, enquanto transformava a linguagem vulgar em terminologia da aristocracia biológica pelo nascer da nova semântica de replicação, transcrição, tradução, expressão, entre muitos outros conceitos, conseguia fazer realidade o pensamento de Freeman Dyson em “Imagined words”: “a ciência é o meu território; mas a ciência-ficção é a paisagem dos meus sonhos”. Porque desses sonhos - reconstrução de velhos mitos - vividos há apenas umas quantas décadas, passou-se à realidade dos territórios da ciência e da técnica dos nossos dias.
O tema é por demais excitante para continuar um pouco mais na incursão pelo inebriante historial do ADN. A estrutura química do ADN em dupla hélice, descrita por James Watson e Francis Crick em 1953, laureados com o Prémio Nobel da Medicina em 1962, conduziu a magníficos resultados capitalizados pela actual bioengenharia, que tem como substrato os métodos do ADN-recombinante. A este propósito ou a talhe de foice, se preferirem, o “alteplase”, por exemplo, um agente trombolítico usado para “dissolver” trombos coronários em situações de enfarte agudo do miocárdio, além de fibrinolítico, é não antigénico, porque é sintetizado pelo ADN-recombinante, tecnologia que “mimetiza” o activador do plasminogénio tecidular normalmente segregado pelas células endoteliais humanas. Isto porque a bioengenharia é capaz de criar novas espécies vegetais e animais, e, inclusivamente quimeras de animais (animais compostos por células de duas ou mais proveniências genéticas diferentes) bem próximas das ficções antigas, isto é, da mitologia clássica, onde a quimera era um animal fabuloso, um misto de leão, serpente e cabra, ou do mito do Minotauro (um monstro que tinha corpo de homem e cabeça de touro). A bioengenharia permite modificar as propriedades e até a forma dos organismos com fins clínicos, agrícolas ou industriais. Digamos, é capaz de proporcionar a terapia génica, incluindo o repto das doenças multigénicas, a manipulação, a pedido, da esterilidade das sementes de plantas, a transferência de núcleos na qual se fundamentam as técnicas de clonagem (allo, Doly! Mééééé ). A vinculação de genes específicos ao padecimento de doenças – o macaco tetra - e a tentativa de aplicação de nova linguagem aos computadores - já não binária, mas apoiada na linguagem do ADN, com um alfabeto de quatro bases - aliadas à conjunção da informática com a genómica, irão gerar novos produtos com aplicações diversas nas áreas da biotecnologia e da medicina.

Relacionada, ainda, com esta questão científica, que preocupa a grande maioria dos viventes, está a senectude, que começa quando principiamos a morrer espontaneamente. Para um biólogo, por exemplo, a senectude implica a ausência ou falência na replicação do AND; a célula não se pode dividir e morre espontaneamente. Os sistemas de transcrição estão alterados, num contexto complexo que talvez seja consequência da biologia geral desta etapa. Neste processo de envelhecimento geral estão patentes uma regeneração lenta, uma transcrição, uma actividade e uma capacidade lentas da célula para produzir proteínas.
Todavia, possuímos enzimas de manutenção que continuamente detectam a ocorrência de defeitos, corrigindo-os. Os mecanismos de reparação e manutenção são espantosamente eficazes. Sabe-se que os genes são trechos do ADN que codificam proteínas específicas. E, apesar de no genoma humano existirem, repito, três mil milhões de pares de bases nos genes, as enzimas de manutenção e reparação apenas não conseguem corrigir falhas de emparelhamento de três bases, o que é algo de espantoso. São capazes de "cortar" o ADN e preencher os espaços incompletos com as bases correctas que faltavam, garantindo-se, assim, a fidelidade das cópias. Já no seu romance “T Zero”, Ítalo Calvino mostra-nos a função que cumpre esta base de dados arrecadada nos assombrosos microchips cromossómicos quando nos conta: “... Contar a minha história e a de Priscila quer dizer em primeiro lugar definir as relações que se estabelecem entre as minhas proteínas e as de Priscila, sejam tomadas separadamente ou no seu todo, dirigidas tanto as minhas como as dela por ácidos nucleicos dispostos em séries idênticas em cada uma das suas células e em cada uma das minhas”; excerto literário que bem poderia recopiar o argumento do chamado “dogma central” da biologia molecular, ao estabelecer que a informação contida no ordenamento dos três mil milhões de unidades químicas no ADN humano - base material dos cromossomas e, portanto, dos genes, suas porções funcionais - se expressa sob a forma de proteínas dotadas das mais variadas funções, tais como: a de catalisadores, de defesa e, até, a de suporte ao amor de Priscila.
O ”dogma central” da biologia molecular é uma presunção de Watson, que atribuía ao ADN, toda a responsabilidade e todo o protagonismo na formação de proteínas, isto é: o ADN faz o ARN produzir proteínas! Secundarizava, pois, o papel do ARN. Veio a descobrir-se, posteriormente, que os retrovírus punham em causa este “dogma”.
Numa representação simbólica em que o cenário fosse uma biblioteca de ADN, aos Cromossomas, a cada filamento de ADN e aos genes poderia fazer-se corresponder as estantes, um livro e os capítulos, respectivamente. Diferem, pois, nas suas dimensões, o que não os impede de repartirem o segredo das suas funções com o ordenamento das suas quatro únicas unidades: as quatro bases de nucleótidos com que se escreve o código genético (adenina-A, guanina-G, timinaT e citosina-C), que formam o seu alfabeto.
Sem formalismos, concedamos: orientar-se dentro da longa molécula de ADN humano à procura dos genes responsáveis por doenças hereditárias é tarefa extremamente complexa. É como visitar um país, melhor, um continente às cegas.
Mais: o gene p53 é aquele que nos últimos anos tem concitado maior atenção. O p53 é um regulador das perturbações da proliferação. Na presença de uma lesão do ADN, ocorre uma estimulação da proteína p53 que diz à célula que morra, ou sintetize mais p21 que, por sua vez, diz à célula que diferencie, ou pare o ciclo celular e a síntese de ADN. Quer dizer: ao promover a sequência da morte celular, isto é, ao obrigar a morrer as células que não consegue reparar - apoptose celular - impede uma proliferação não regulada do ADN.

Para reflexão: "os fumadores com cancro na cavidade oral têm mutação do p53, o mesmo não acontecendo com os não fumadores". Conhecem certamente o epílogo da história clínica do "Homem do Marlboro (...)!
O fumo do tabaco engravida a voz, isto é, torna-a mais grave (!...).
Pois bem. O p53 é o gene supressor tumoral mais mutado em todos os cancros humanos. Cerca de pelo menos 75% dos cancros humanos têm mutação da proteína p53 que desempenha um papel fulcral na homeostase celular porque reconhece as alterações ao nível do ADN.
Continuando, o projecto do genoma humano nunca esteve quieto, mas sim nervoso e pujante. Como o sonho, pula e avança. Já lá vai a célebre experiência com ervilhas, levada a cabo pelo monge austríaco JG Mendel, em 1865, que marca o princípio da genética:” Talvez haja mais alguma coisa do que parece nas ervilhas! Talvez elas contenham instruções ocultas que nem sempre revelam o que dizem; uma ervilha redonda poderia conter escondido em si própria a instrução para as rugas”. Mendel sugeriu que tanto o pólen como o óvulo eram portadores de uma partícula (hoje chamada gene) que continha o código da forma da ervilha ao reproduzir-se.
O virar deste milénio trouxe de bandeja aos caçadores de genes de doenças hereditárias humanas, a possibilidade de disporem oficialmente de um "mapa de estradas" bem sinalizado, com a totalidade dos cromossomas humanos. Contudo, mapear não significa descodificar, e, até conhecermos todas as interacções e implicações deste complexo e admirável mundo novo, “é vindima!...”
Existem muitos genes, e conhecê-los-emos todos. Estaremos, assim, por dentro de um gene a fazer a leitura da sequência do ADN, e, com isso, teremos a certeza do gene implicado na doença. Estamos, pois, cada vez mais perto das fontes da vida. A luta continua! A vida continua! Com ou sem genocracia, com ou sem abutres a afivelar a máscara para o negócio na saúde!...
Em jeito de flash de frescura, pode dizer-se que a era dos estudos de associação de genoma completo (genome-wide association studies [GWAS]) já aqui está, e no curto lapso de 5 anos o seu rendimento prolífico foi extraordinário Os GWAS serão provavelmente um marco da ciência no século XXI, tal como o foi o Projecto Genoma Humano no século XX. O desenho dos GWAS proporciona uma abordagem não enviesada para localizar nos mapas cromossómicos as variantes genéticas de risco frequentes.

As versões cinematográficas – e foram várias - a tratar o tema da evolução biológica e do criacionismo, têm aparecido progressivamente menos nos ecrãs de cinema. Talvez porque estejamos mais tolerantes, mais cordatos e mais francos e empáticos. Pena é, que as referidas versões não tenham sido substituídos por uma crescente discussão dos problemas ambientais e das alterações climatéricas que lhe estão inerentes.

Neste contexto, talvez por gostar muito do actor Spencer Tracy - lembro-me de O Velho e o Mar, entre muitos filmes em que participou -, “Inherit the Wind” é o título de um filme realizado em 1960 nos E.U., que tem por argumento o ditado: quem arruína a sua casa herdará o vento. Baseado num caso real ocorrido em 1925, conhecido por “Monkey Trial”, no qual um professor de ciências de Tennessee, John Scopes fora preso acusado do crime de ter exposto as teorias evolucionistas do Estado. Numa comunidade religiosa Americana, um professor de Ciências é preso por ensinar aos seus alunos a teoria da Evolução das Espécies proposta pelo naturalista Charles Darwin, contrariando uma das leis locais que não permite o ensino de disciplinas opostas ao Criacionismo. Daí, trava-se no tribunal, por meio de dois grandes advogados, interpretados por Spencer Tracy e Fredric March, um grande embate ideológico que envolve toda a comunidade local e seus princípios religiosos. Este filme, aquece a nossa opinião com diálogos pertinentes e perspicazes, e apesar de antigo, mostra-se ainda actual, quando, aqui e ali, vemos alguém no seu fervor religioso protagonizar episódios medievais e intolerantes, movido pelo fanatismo fundamentalista, mesmo com todo o avanço do pensamento tecnológico e a liberdade de expressão que vivemos hoje em dia. Durante o julgamento, que durou onze dias e foi o primeiro a ser transmitido por rádio, a defesa foi impedida pelo juiz de apresentar cientistas como testemunhas em favor da teoria da evolução.
Scopes solicitou deliberadamente a manutenção da prisão, para tentar provar que a lei era injusta. E o veredicto virou causa nacional. O famoso advogado Henry Drummond vai fazer a defesa de Scopes, agora com o nome de Bertram Cates; um político fundamentalista, Matthew Brady, tinha a cargo a parte acusatória. O defensor, protagonizado por Spencer Tracy, disse: “... O progresso nunca foi um tratado. Há que pagar por ele. Às vezes penso num homem por detrás de um espelho que nos diz: muito bem, pode você ter o telefone, mas deverá sacrificar a intimidade, o encanto da distância... Caro Senhor, pode você, conquistar o ar, mas os pássaros perderão a sua magia e as nuvens cheirarão a gasolina!”.

A gasolina cheira o recente desastre ambiental causado pela maré negra no Golfo do México, causado pela explosão da plataforma subaquática Deep Horizont. Mas pode, também, favorecer uma tomada maior de consciência sobre os perigos relacionados com a dependência do petróleo e que nos ajude a dar conta de que temos de deixar os combustíveis fósseis trocando-os pelas alternativas mais amigas do ambiente, bem como repensar a forma como exploramos os oceanos, como afirma Philippe Cousteau, neto do célebre explorador francês Jacques-Yves Cousteau.
Como rebusco de todo o anterior, é de esperar e prevenir que esses cromossomas, carregados de tanta e poderosa magia, que deslumbram todo aquele que tiver a felicidade, como T H Morgan com as moscas-das-frutas, de os surpreender na intimidade dos momentos da divisão celular, maravilha da natureza, nos desvendem e proporcionem mais e mais informação para a cura das doenças e bem-estar físico, e menos pivete a petróleo na bolsa de Nova Iorque, com vendas às empresas farmacêuticas por quantias astronómicas.

Sempre que a expressão audiatur et altera pars, que significa “ouça-se também a outra parte”, tiver eco, o contraditório e "associações sem fins lucrativos, independentes e sem qualquer vínculo político-partidário, que tenham como missão divulgar boas práticas e propor soluções inovadoras, através de contribuições interdisciplinares de mulheres e homens de bem, que acreditam que a liberdade cria espaço para a criatividade, o mérito e a responsabilidade", estaremos no bom caminho, e aptos para não julgar o livro pela capa!

Ponho ponto final parafraseando Freeman Dyson em “Infinito em todas as direcções”, Gradiva, 1990, quando escreve: “Deus não é omnisciente nem omnipotente. Aprende e cresce à medida que o universo se expande. Não pretendo compreender as subtilezas teológicas a que esta doutrina conduz se a analisar em pormenor. Considero-a meramente congenial e consistente com o senso comum científico. Não faço nenhuma distinção clara entre a mente e Deus. Deus é aquilo em que a mente se transforma quando esta passa para além da escala da nossa compreensão”.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

Tempo de Festas

São Caetano
Tempo de Festas, vêm aí: a “do” São Caetano (serôdia), da Senhora das Brotas (temporã), da Senhora da Saúde, dos Aflitos, dos Mártires, da Azinheira, da Aparecida, da Libração, do Senhor do Calvário, dos Aflitos; de muitas outras Santas e de não menos Santos e Padroeiros, cada um em seu altar e em sua área de influência. Renovam-se ao ritmo dos solstícios e constituem efemérides que o tempo não consegue apagar, tão gravadas estão na memória de todos, e dos Emigrantes em particular, que, com saudades e lamecha, cultivam regularmente a lembrança de tempos livres, descomprometidos e solidários. O cordeiro, ou cabrito, assado de véspera no forno comunitário, impunha aguardar nervosamente a hora do almoço, e dar-se-ia à prova de predadores esfomeados e sedentos, que, entrincheirados ombro a ombro, se acotovelavam na procura de assento à mesa de toalha de linho imaculada – antes do ritual pantagruélico; da cor da uva preta para o fim do repasto -.
...Zombam da Fé os insensatos, erguem-se em vão contra o Senhor... A missa tinha acabado e a procissão já levava caminho. Andores, estandartes, anjinhos, soldados romanos, pagadores de promessas, povo anónimo; todos pela mesma vereda, comungando do mesmo sentimento religioso. Nas aldeias não havia mirones. Algum, esporádico, só forasteiro.
...Santos Anjos e Arcanjos vinde em nossa companhia, ajudai-nos a louvar a Divina Eucaristia... As melhores colchas pendiam e ornamentavam os peitoris das janelas e das varandas, donde saia uma chuva de flores, arremessada em leque, com intensidade de aguaceiro à passagem do Pálio, ponto alto da procissão; e toda a rua se vestia de pétalas brancas e coloridas, angelical, num asseio bem à altura da solenidade do evento, do rigor dos lustrosos sapatos, da brancura das camisas e das camisetas, das saias plissadas, das meias, dos fatos, lenços, véus, tranças, brilhantina e permanente. A banda filarmónica acompanhava os festeiros, em marcha cadenciada, com o “fiel” da caixa, a executar, sozinho, uma célula métrica: tum, tum, tum, terrrrrum, entrecortada por breves rufos ou, alternativamente, já com todos os executantes, depois de um golpe seco no bombo, e sob a superior direcção do maestro, uma marcha talhada para a solenidade. O Mestre seguia à frente, como manda a “cartilha,” seguido dos instrumentistas, dispostos em formação por colunas. Os sopros, de madeira e de metal, com predomínio destes, levavam a exígua pauta na ponta do instrumento: clarinete e requinta a exigirem vista de pássaro, proporcional à distância da minimizada partitura, para não comprometerem a visão da posição dos dedos e o mecanismo das válvulas. Outros instrumentos que não permitiam tal solução, obrigavam ao recurso engenhoso de dependurar a partitura nas costas da fardamenta do colega da frente, donde pendia engatada por “segurança”. Já para o bombardino a solução era mais fácil! Não havia Sousafone, mas sim a clássica tuba de pistões. Predominava a afinação em brilhante, suponho! E quem tocava carrilhão não ia na procissão! Todos fardados, engravatados, engraxados, luzidios e entregues sem reservas às coisas do Sagrado, com um olhar esguio a resvalar para o profano. Para as refeições, aboletavam-se os músicos pelas várias casas da aldeia aonde haviam chegado de autocarro alugado ou resgatado a algum sucateiro, e posto novamente a rolar, agora reservado ao serviço privado da colectividade filarmónica: Banda... tal...
Era chegada a hora de repor e acumular energias para a tarde e, sobretudo, para a noite que se adivinhava de tarefa dura. A refeição do almoço era a mais fresca e apurada, pelo que fazia um namoro descarado às glândulas salivares que se rendiam babadas a tanta sedução. Sobrava peguilho (ou “cibo”) para dar e vender; mesmo assim “buraca limpa”, como quem diz: comiam como músicos, versão “bandana” (neologismo) de comiam como abades, segundo a crença de cada um. Afinal, quem não é para “o” comer (e beber!...) não é para “o” tocar! O comer e o tocar, andam sempre par a par: refrão esquecido!

Onde é que eu ia? Ah, o sol tinha já chegado ao pico da montanha russa, e, a despertar da sesta, preparava-se para descer. São horas de chiscar a banda. Toca a formar e, nova arruada para anunciar o bailarico da tarde.
A canalha constituía-se em mundo à parte, dando largas à inquietude própria da idade e do acontecimento. Soltos que nem cabritos, estes endiabrados garotos, sempre com o fogo no rabo, a bulir em tudo, davam-se às corridas, para lá e para cá, ziguezagueando por entre os pares dançantes, com ou sem ventoinha de papel na mão, em rotação proporcional ao efeito de Bernoulli, ora às escondidas, ora provocando a atenção dos adultos, ora fugindo deles, ora contribuindo com eles para as revoadas de pó, seguiam a trajectória das canas para as recolher como troféu, tal como cães perdigueiros fossem.
Mas, o licor das festas estava nos arraiais. A noite emprestava um ambiente misterioso e um peito desinibido, bem diferente do ar afectado e acabrunhado que a luz solar desses dias distantes impunha. Um dos momentos altos, vinha com a largada do fogo-de-artifício: a descarga da meia-noite, provavelmente a melhor. A pirotecnia fazia maravilhas, e as delícias de todas as idades. Só as morteiradas ou alguma cana que caia em crânio verde (vulgarmente nos c...nos) de um azarado qualquer, menos atento ou mais lento no raciocínio, parava a mirada posta no firmamento, extasiada com o lacrimejar das series de foguetório, que iluminavam uma vasta área adjacente ao local do baile, gentilmente cedido para o efeito. Em algumas romarias, viam-se, um pouco em jeito devassado, mas avassalador, pares de corpos semeados nos campos à volta, entrelaçados, encontrando-se, depois dos segredinhos, olhares cúmplices e desejos contidos de aproximação, que o decorrer do dia solar tinha proporcionado. Os ainda não encontrados, ou perdidos, os de menor pendor de engate, ou em quem o bicho-caxeiro do cupido trazia desassossegados e ávidos de experimentações, regalavam-se com aquele entregar arrebatador que só um ou outro morteiro faria discretamente arrefecer, tal a fúria indomável da entrega das almas e dos corpos.
Pelo meio destas alegrias e paixões, destes encontros e desencontros, destes amores, desamores ou amuos, uma ou outra escaramuça, vinda do nada, por vezes se vestia de camisa de onze varas. Aí, entrava o desempenho, com brio, do cabo da GNR: normalmente, como diz Ronaldo “Deus não dorme”, seriam premiados sobretudo aqueles que teriam encostado bastas vezes a barriga ao improvisado balcão da tenda dos comes e bebes.
Por vezes, sem saber ler nem escrever, ou ao mínimo melindre, engaliavam-se os arrufados e caia “bordoada” de criar bicho. Mas se a armadilha do acaso picava o clã Gitano, descambava-se numa autêntica guerra campal. Parecia até, que as bengalas, estariam mais vocacionadas e atreitas à curvatura dos lombos, pela capacidade evidente em dolmar, do que dadas exclusivamente às tarefas seculares de apoio em ambulatório. De repente, as coronhas das “mausers” do Grupo Não Recomendado, ameaçavam em jeito de trepano, às vezes praticado, na lógica do disparar primeiro e perguntar depois!
Alguns, dos menos afoitos à dança, iam descendo botão a botão, como quem diz copo a copo, todo o corpo da cintura para cima, deixando deslizar cada vez mais o ventre, o tórax, até ao cotovelo, até à cabeça enlouquecida por um carrossel que não dava tréguas ao desequilíbrio. Um ou outro dava uns passos com o “caneco” na mão, ou, quando mais ousado e desinibido, tentava equilibrá-lo na cabeça, depois de encanadas várias unidades, sob luz pálida e mortiça do carboneto. Era notório um rodopio, um vaivém constante e apressado destes devotos de Baco para locais recatados, onde olhares persecutórios não chegavam – quando a celeridade não os traia – e aí se sentiam aliviados e herdeiros de um paraíso reconfortante, onde, na intimidade, desafogando o prazer da dor, soltavam um suspiro de alívio: háááá!...
Do outro lado do espectro, podia ver-se uma ou outra fila de romeiros, em fila indiana, mãos nos bolsos - de um lado, o dinheiro e o lenço engomado, do outro, algumas carícias apaziguadoras ao furor – enfrentando com impaciência e inquietação, o pudor e a falta de à-vontade que o contacto com a mais “antiga profissão do mundo” e ao ar livre, condicionam. Só quem não sentiu na carne o que esta postura acarreta, em espera impaciente pela vez da satisfação de dever de raça cumprido, poderá estar indiferente. Tudo isto para gáudio de outros mirones que desfrutavam o movimento cadenciado, no início, em crescendo para o final, até aterrarem de vez e satisfeitos, servidos e aliviados na enxerga humana: os cús alvos ao luar do foguetório, exibiam-se em movimento de yo-yo como que suspensos de mola com oscilação vertical de período variável, em curva sinusoidal! O meu amigo João Guimarães (cito o nome por amizade e reconhecimento) lembrou-me com pertinência – e lá sabe porquê… -, que uma vez por outra caía um moleque da árvore mais próxima, ao se acomodar num galho mais fino para melhor assistir o espectáculo...
Enquanto isto, as bandas rivais desunhavam-se num despique frenético, atacando sem tréguas, sem descanso, cada uma com os seus indefectíveis adeptos, para o bem e para o mal, e para levar o ramo, que é como quem diz, arrebatar ou louros do melhor desempenho. Isto se picados no ego, ou quando a cor da camisola corresse o risco de debotar. Outras vezes faziam muita cera e as obras despachavam-nas rapidamente. Por vezes tudo corria bem, na mais santa e pacata harmonia. Uma ou outra vez aparecia um - ou dois - provocadores, armados de concertina a arremedar as filarmónicas, com algum séquito atrás, ora atirando notas de uma qualquer cantiga então na moda na rádio, ou, muitas vezes como suporte melódico de um cantar de quadras ao desafio, intermináveis. O realejo também marcava pontualmente presença na parafernália instrumental destes eventos.
As músicas de andamento lento afugentavam dos coretos, como o diabo da cruz, os pares mais jurássicos, mais "tratados" pelo pingato e mais saturados da omnipresença da "minha" senhora: excepto os adultos single, mancebos espigadotes e galferros na flor da vida, que viam nesta música o bálsamo e a chispa iniciática da felicidade, tentando uma aproximação e uma postura sensual irreprimíveis, não arredando pé dessa fonte musical. Havia melgas, de vozinha maviosa, que à falta de empatia das moças, dançavam uns com (ou contra!) os outros. Era chegado o fim da Festa. E, no fim, todos encartavam o estojo, de regresso a casa. A pé, de autocarro, a cavalo, de carro de praça que nem sardinhas: mais mortos que vivos. Ainda assim os borguistas, cabisbaixos, tristonhos, com olhinhos de carneiro mal morto, resistiam à ideia de que tudo havia terminado, (como dizer?) miragem, tal a nostalgia de festa acabada. A ressaca e o amargor de boca tornavam-se cada vez mais intensos à medida que as gambiarras de luzes, suportadas por postes de madeira, se apagavam de vez, e, os foliões, finalmente regressavam ao pardieiro, que um ilusório e bucólico sentimento mimava de doce lar. O regresso ao piano caseiro representava o esboroar da ilusão intensa e das fantasias confiadas aos últimos dias, e a desilusão não menos dramática de um horizonte distante de 365 dias, quase todos “pica boi”.
Adentrando-se pelo resto da madrugada, o desassossego das entranhas manifestava-se em momentos de alegrias tristes, com gómitos e escorlas, muito papel higiénico (ou outros recursos de higiene íntima : seixos, papel de embrulho, erva...), e fortes doses de laranjada para acalmar o animal!
Quem não tem bois lavra antes, ou depois!

domingo, 30 de maio de 2010

Professor Pedro Zarco Gutiérrez. In Memoriam

Professor Pedro Zarco Gutiérrez. In Memoriam
… con toda la mar detras…

Sol menino que desperta
Tela nua, núcleo alado;
O herói da bela gesta,
Apocalipse bem nado.

Esboça, molda, retoca;
Harmonia, elixir, alquimia;
Fala, Picasso ou Lorca,
É elogio à magia.

Satélite da esp’rança
Para órbita da vida,
Timoneiro que não cansa
Pela noite ofendida.

Irrompe já, atrevido,
Alegro bem ritmado;
Então mística ao vivo,
Concreto sonho sonhado.

Latido bem temperado,
Suspenso mundo de fadas,
O velame enfunado,
Indiferente às vagas.

Indif’rente à roupagem,
Cristalino ser ou não ser;
Presa da sorte selvagem,
Qual bemequer-malmequer.

Estóica acrobacia
De amores imolados;
Amordaçada melodia
De poemas enlevados.

Corre, tropeça, regressa,
Bolina, corre no vento.
Sonha, cria, sente pressa,
Louco em pegar o tempo.

Mão surrealista do quotidiano stress,
De grandezas póstumas, efémeras glórias.
Melodia patética, fronteira agreste,
Balão de realidades fantasmagóricas.
Ex-líbris de paixões arrebatadas,
O habeas Corpus almejado.
Corso, vendilhão de malfadadas.
Ostracismo involuntário.
Ribalta sem luz em espectáculo logrado,
O implacável talião de pena e perdão.
Honorável tribuna de Deus e do Diabo,
Um Yoga Quixotado, un Asceta D. Juan.

Cibernética pautada,
Dialéctica consequente.
Estratégia gorada,
De táctica int’ligente.

Gavião de pena caída.
A síntese sublimada.
A reflexão profecia,
Em aragem remoçada.

Círculo espiralado
De antologia fugaz.
A indelével ousado,
Requiem sentenciado,
Numa lógica voraz.

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Sabedoria

“Summertime, and the livin’ is hard, daddy’s rich and his momma’s flat calm…”
A faina da malhada ainda se processava sem quebranto e sem lamúrias, como o havia sido ao longo de todo o dia, sob um sol abrasador e dono absoluto de um céu azul de Agosto; ainda mais escaldante porque o lajedo subjacente à eira, sobreaquecido, contribuía com mais e mais calor sufocante. Pairava aí um ar sem bafo, sem rugas, despido de qualquer farrapito branco, e não se viam pequenos remoinhos, minúsculos tornados, que levantam pó e arrastam consigo pequenos insectos que serão alimento apreciado por aves que os esperam planando nas ascendentes térmicas. “O Pinheiro”, nome porque era conhecido o local onde se procedia a essa tarefa anual de separar o grão da palha, era ficcional, como ficcional era a sombra que dele emanava. Pinheiro nem de copa redonda, nem gótico, nem outra espécie qualquer. E, Vivenda Pinheiro, como também se chamava, não reunia condições arquitectónicas para tanta pompa e água benta!
Seriam as seis da tarde e o sol mantinha-se empoleirado no seu alto, atento e sem sono; seria necessário esperar mais três horas para que, com o entardecer e à boca da noite, o astro rei se deitasse para lá do oeste, mais além, ainda, do sol-posto. Os pássaros, na sua maioria pardais, emudeceram, por ronha, o chilreio, acoitados em galho amigo, no recato da sombra da folhagem, e no consolo de alguma brisa que soprasse, suave: ganhando folgo para a sinfonia com inicio marcado ao moribundar desse dia.
Zé Coelho, homem de estatura média e franzino, encarregava-se afoitadamente de alimentar de palha de centeio a debulhadora, com perfeição cadenciada; aliás, nesta como em todas as tarefas a que este trabalhador de rebimba o malho deitasse mão, designadamente na qualidade de vedor, sacristão ou pregoeiro pós missa, dava cartas. Em fase mais tardia da vida, porque não sábia, dedicou-se a pastor de gado e comentador desportivo. Zé Coelho, dava cartas na desenvoltura do trabalho, impondo o ritmo aos demais, na execução das tarefas respectivas. A malhadeira soltava gemidos e roncos abafados com timbre grave de fagote quando engolia as molhadas de palha, como que avisando Zé Coelho que tivesse cuidado com as mãos, não fosse o diabo tecê-las: com o peso do cansaço e com as constantes carícias labiais no pipo comunitário, que corria todo o espaço da eira à velocidade de um abelhão, fazendo esquecer a ambiência abrasadora, até que os corpos caíssem que nem pedras devorados pelo sono e rendidos à fadiga: mulheres a um lado, homens a outro.
Marquinhas, a senhora do casal, depois de acabadas as lides do almoço - louça limpa e devidamente arrumada no lançador da banca de cozinha - regressara ao local do Pinheiro onde a malhada se desenrolava, e sentara-se em merouço de palha, que lhe conferia confortável almofada ao avantajado par de nádegas de que era dona e senhora. Marquinhas era monárquica, beata, melancólica, olhos fundos e bonitos, de olhar penetrante, e incomensuravelmente meigos e desculpabilizantes para os entes queridos; anca larga, vestia preto sombrio, mais por peso dos costumes do que por luto pesado que as circunstancias à altura recomendassem. Calçava meia preta que ancorava na raiz da coxa, por liga elástica e manifestava particular gosto por blusas brancas bordadas, de seda estampada, sempre que era oportuno, bem como por combinações (lingerie) de toque macio; bebedora compulsiva de café de cidreira: uma santa. Viajante incansável, para qualquer parte: Fátima e Cristo Rei de Almada, paragens obrigatórias. Nunca fora a Lurdes ou a Roma, locais que lhe ocupavam a memória e a vontade de peregrinar.
Nessa tarde de azáfama, solarenga e quente, o perigo andava, como sempre, por perto e à espreita. É assim que, nas mudanças de posição de sentada, para dar tréguas à nádega mais solicitada para assento, sentiu uma violenta ferroada na coxa que a fez soltar um grito de dor: - ai Jesus! Lamento que foi ouvido e presenciado por alguns dos jeireiros que, impulsionados pelo insólito acorreram de imediato a socorrer a azarada senhora, ajudando-a a levantar-se. É neste instante que vêem o agente causador do alvoroço: uma pequena cobra com aspecto de “víbora” que tentava escapar-se assobiando de medo. Mataram-na e enfiaram-na em frasco com aguardente, que nem formol, onde esteve, décadas, submersa. O veneno pode matar! Era a ideia dominante. Impunha-se uma consulta urgente: levá-la ao hospital ou chamar o médico. Qualquer das tarefas se adivinhava difícil, pelo transporte. Optou-se por levá-la para casa e chamar o médico. Assim foi: levaram a senhora deitada em carro de bois até à residência, enquanto Augusto Júnior mais Januário (ajudante), partia apressadamente em camioneta Berliet, a chamar o médico para acudir à emergência, o melhor que pudesse e soubesse, até porque não se conhecia antídoto.
- Donde teria aparecido aquela cobra? Perguntava Januário, perplexo, enquanto descia a N314!
- Cobra! - exclamou Júnior- Víbora, c..lho! Ou veio na palha, ou foi meu pai que a trouxe do Mogadouro, em algum saco de batatas que tenha sobrado de Campo de víboras…! -.
Na procura de médico disponível para a emergência domiciliária, encontraram Dr. Adalberto, clínico indefectível e sempre complacente com aflições realmente urgentes. Homem que não dava valor à importância e, se a enfrentasse, perguntava onde comprá-la e a que preço!? Dr. Adalberto era um homem na casa dos cinquenta, uma idade que podemos qualificar com optimismo e carinho como o equador da vida, já em irreversível declinação biológica. Mas também, e por isso mesmo, a que confronta o homem com a hora da verdade e lhe exige peremptoriamente que dê o melhor de si. Até porque os tempos das angústias, das incertezas, dos erros, dos pesadelos, do apoio e lições de colegas experientes tinham dado lugar a um médico calejado, sabedor, confiante e confiável.
Este João Semana era pouco andarilho, porque o porte grandalhão, a fama de "Obélix", e o não menor proveito de lambazana por tudo em que a carne de porco é matéria-prima, lhe condicionavam os gestos, as pernas e as mexidas: embora, ao contrário daquele personagem gaulês, este esculápio ao não haver caído em nenhum caldeirão de poção mágica de druida, era calmo no trato e manso nos gestos. Contrariamente a Obélix, que se saiba, Dr. Adalberto era casado com senhora muito bonita, a quem não gostava de ver aproximar-se muito da janela: o sagrado compromisso do matrimónio, às vezes, não chega ou não impede que o coração saia pela janela fora e esqueça ou não saiba o caminho de regresso!
Dr. Adalberto aceitou ir na camioneta de Augusto Júnior observar a mordedura e evacuar Marquinhas para o hospital, se o quadro clínico o aconselhasse. Munido da respectiva "mala de médico", ocupou o "lugar do morto" na cabine da camioneta, com Januário prensado a meio do assento corrido a toda a cabine, e lá foram a caminho do Brunheiro, de vidro aberto, apreciando a paisagem que fugia em sentido contrário.
Chegado ao destino, tinha a esperá-lo Augusto, o dono da casa, que o levou ao contacto com Marquinhas. Cumprimentou, trocou algumas falas, observou, palpou e optou por tratamento local e relativamente simples, ao ter concluído que dominaria a situação com o equipamento e as ajudas farmacêuticas que trazia consigo na respectiva mala.
À vista da paciente e demais presentes, começou por dissertar sobre répteis e serpentes, e dizer não haver antídoto para a mordedura da víbora-cornuda, a mais perigosa para pessoas debilitadas ou crianças, o que não era o caso, tranquilizou. Tão pouco se poderia temer a espécie vivípara, que lhe mostraram, porque parecia tratar-se de parente menos virulento, ao não possuir o desenho de pele distintivo da cornuda. Optou por colocar garrote, dar analgésicos e unguentos locais sobre a mordedura, e ficou relativamente tranquilo com os poucos sintomas e o discreto entumescimento local. Disse para consigo: “wait and see”!, com a convicção de que o prognóstico seria favorável.
Acossado de todos os lados pela curiosidade humana, com um voejar constante de pessoas à sua volta, terminou a observação e respectivo aconselhamento da desditada. Alguns ganapos de roupa encardida, com moncos, ranhos e sarros mal disfarçados, e com calça rachada, engrossavam a plateia de mirones.
É neste momento e neste ambiente que começaram a chover perguntas inapropriadas, e apelos de todo o lado:
- Senhor Doutor o meu filho tem esfoira!;
- Senhor Doutor o meu pai não obra há cinco dias!
- Senhor Doutor, chá de bolota de roseira brava faz bem às pessoas, digo: ás guerduras, acúcres e tinsões?
- Não te sei responder, homem de Deus – retribuiu o clínico, sem receita ou panaceia assertivas.
- Só perguntei pensando que se o dito chá faz bem a cavalos e a burros, também deve fazer bem às pessoas!
– Que Deus te responda! - retorquiu Adalberto.
- A minha tensão tem andado a cento e sessenta e um à hora: preciso de soro?

Dr. Adalberto aguentava as perguntas tergiversando com exemplos, que entretinham os perguntadores:
- Fulano, com 23 anos caíra de um galho onde colhia cerejas e fora levado ao hospital onde apanhara 7 pontos. Ficou internado. Ao 2º dia disse a uma das visitas da sua confiança que lhe levasse uma garrafinha de aguardente que sabia que era boa, porque estava habituado a beber todos os dias um copo de manha e um copo à noite ao jantar. Ficou curado; e casou a seguir. A Mulher morreu aos 82 anos, e primeiro que ele. Teve 26 filhos, que morriam frequentemente à nascença; sobram 12, menos um que veio em esquife da Guiné. - A minha mulher nunca se levantava da cama sem estar prenha após ter filhos -; contava que também lhe chegava a roupa ao pêlo, um pouco…! Mas, ainda cá anda!
Rosa Maria, outra queixosa, dizia: - Senhor Doutor, tive três filhos quase seguidos, ao terceiro já não andava bem, mas, em vez de repousar pus-me logo a coser pão, fiz força, o úterê desceu-me à boca do corpo e escapava-se-me a urina amiúde: tenho a vida negra. Hói jasus! Que posso fazer?
Outra dos presentes: - Tenho aqui um calo na ponta do dedo, parece um cão ferrado: zás!, zás!, zás!, antes queria que me cortassem o dedo que ter sempre aqui este olho de pita a ralar-me dia e noite: vejo-me negra com estas dores de morrer. Abaixo do joelho até se me acende a perna. Vou para comer e o coração e o estômago não querem; estou abatida: apesar dos depositórios. Com a rela da espinha nem posso tocar as vacas ao monte. Que vou fazer à vida?
- Sr. Doutor, tenho chechenta e dois anos, morreu-me o marido cum câncaro de fígado, há pouco, vivo sozinha e ando desconfiada: tenho medo de ter um mal ruim, caio muitas vezes, alguma coisa se passa comigo, ando aflita; agora que se vêm tantas destas coisas ruins por aí..., a doença da moda...
Dr. Adalberto achou chegada a hora de por fim ao tempo da consulta, até porque o emaranhado de queixas e padecimentos não permitiria um raciocínio lógico e só embaciaria a marcha para o diagnóstico.
É aqui que Dr. Adalberto joga uma cartada de mestre cuja sabedoria emudece todos os consulentes dizendo:
- Bem… Olhai…
Pés quentes,
Mentes frias,
E límpidas urinas;
Cagai para as medicinas.
Terminava a consulta, já não era sem tempo e, Augusto, dono da casa, perguntava ao galeno pelos honorários:
- Quanto devo, Sr. Doutor?
O clínico queimou meia dúzia de segundos a reflectir e inquiriu-o:
- Tens aí um presuntinho?
Ainda a pergunta se volatilizava no ar, já rapidamente cobriam a mesa do escano com toalha de linho, pressagiando um ambiente de água na boca tão do agrado do homenzarrão Adalberto.
Ao ver um opulento exemplar de presunto em cima da mesa, seguramente da “desfeita” do que fora um soberbo borrão, com aquele coto podal característico, que não engana nem um cego; pão centeio escuro e caneca canelada azul e branca, generosa em volume e bem abonada em conteúdo, disse o Galeno de olhos arregalados:
- Não é nada! Não é nada!
- Que Deus o abençoe e lhe dê muita saúde! – agradecia, assim, em jeito de estribilho, o coro das velhas, à despedida.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Tragicomédia ao retardador
Na noite de 25 para 26 de Novembro de 1967 registou-se, na região de Lisboa, precipitação intensa e concentrada, tendo atingido, na estação de São Julião do Tojal, no concelho de Loures, 111mm em apenas 5 horas (entre as 19h e as 24 h do dia 25). As estações da região de Lisboa registaram, nesta data, cerca de um quinto do total da precipitação anual.

Sábado 25 de Novembro de 1967. Pairava no céu de Lisboa um negrume carrancudo e intimidante: o fim de época outonal, o País de Camões e das Uvas e, mormente, esse dia que se arrastava e agastava deprimente e tristonho. A prol de Fernão Capelo Gaivota, irrompia do nada, às centenas, aos milhares, em bandos em que sobressaía o branco e o preto: aves marinhas de elite em algazarra humana, permanente. Não se cansava de evoluções aéreas sobre o Tejo, ora agrupada para acrobacias ou rituais baléticos, ora a solo, planando, infatigável, sem barreiras, num crescendo elegante, inspirada no bolero de Ravel, em bolina horizontal tête-à-tête ao vento, ora ziguezagueando, ora em voos rasantes de cálculo preciso, ora subindo ao reino das nuvens aonde, sem artifícios, o homem só chega com o olhar: seres voadores livres e indiferentes a qualquer tormenta. O anticiclone dos Açores agachara-se um pouco a norte da sua posição média habitual para a época do ano e permitia escapadelas, em latitudes relativamente baixas, de depressões carregadas de tempo. A esta condição somavam-se, então, alterações meteorológicas excepcionais, com a formação rápida de uma célula depressionária a partir da Ilha da Madeira, culpa da gota de ar frio que ai se aninhara em altura, na explicação dos meteorologistas. Em Lisboa, pairavam no ar fortes evidências e sérios sinais de alerta de mudanças de tempo em curso, de respeito. Daí a constatação do barómetro em baixa, num prenúncio de mau augúrio, com indícios de agravamento progressivo das condições atmosféricas, pela aproximação da depressão vinda de oeste, do Mar Oceano, onde enchia os odres de água, a caminho da capital Lisboa, substituindo os Velhos Aguadeiros. Mas, ao invés destes que se faziam anunciar por pregões: “Há água fresquinha! Quem quer, quem quer?”, o temporal metamorfoseava em pregoeiros diferentes formas de se anunciar: as cores do arco-íris, a carantonha de aspecto pardacento de chumbo do horizonte e nuvens que cobriam o céu carregadas de luto pesado; o vento a refrescar e a levantar saias desprevenidas e, por último, o dilúvio no lombo dos mais incautos, o que acontecia com frequência.
Cerca das dezanove horas do citado dia, um pequeno grupo de raparigas e rapazes começáva a descer as escadas da Cervejaria Restaurante Odeon, à esquina da Rua dos Condes com a Rua das Portas de Santo Antão: em frente ao Ateneu Comercial de Lisboa.
Orimar, rapaz de pedigree não fidalgo mas de cavalheiro, ex- rambo e defensor de oprimidos; estupendo organizador de encontros e tertúlias de amigos – até de inimigos: é justo dizê-lo só para valorizar o quilate de negociador e gestor de encontros e desencontros, que este inteligente amigo do peito possuía -, tinha convocado esse grupo de companheiros (lato senso), para um jantar convívio no citado restaurante. Seria um pequeno rancho de oito a dez convivas: muito mais por amizade e muito pouco, mesmo nada, de engate. Correu tudo muito bem: boa e sã camaradagem; amizade e boa disposição; escrita em dia; um ou outro delírio intelectual, uma ou outra escapadela até às origens.
O jantar foi divertido, como sempre e a ementa, desta vez, boa, deliciou os presentes com um venerado e opíparo bacalhau à cebolada, bem regado com néctar apaladado, seguramente da Casa José Maria da Fonseca, com sofreguidão, como de costume! O bacalhau à cebolada foi pretexto para incursão literária pela obra De Eça de Queiroz, guru dos bons pratos e dos bons vinhos. O calor da conversa e o aconchego da companhia ancoraria aí os visados até ao fecho da casa de pasto, não fora o facto de, já passando das dez da noite, os empregados pedirem para que se abreviassem as conversas e o pagamento da conta, e que saíssem ligeirinhos porque a água começava a querer inundar a sala do restaurante, o que viria a acontecer. Comprovados os factos pela sua evidência - a água escorria livremente degraus a baixo e, além do mais, enferruja! - pagaram a conta, levantaram-se e, embora tivesse pairado colectivamente a ideia de se poder prolongar o convívio em qualquer local de diversão nocturna, tão pronto acabaram de subir as escadas e, já ao ar livre, constataram, sem margem para dúvidas, de que chovia torrencialmente e a rua se havia convertido em rio de alagada que estava. Os azeites de São Pedro desmotivaram o grupo para qualquer incursão na noite e, assim, despediram-se até uma próxima tertúlia, com saudade e alguma ansiedade na vizinhança do bolso esquerdo do forro do casaco. Veio à baila o velho refrão de que só vem à lembrança Santa Bárbara quando...: os guarda-chuvas ou impermeáveis eram escassos; só o precatado Zénite é que se fazia cobrir por uma espécie de criolina. Pediram táxis por grupos, de que estiveram à espera, cedendo a primazia aos mais necessitados... e às donzelas. Lembra-se, um ou outro, apesar de a cabeça voltear já ao ritmo de carrossel de feira, que um pequeno grupo se unia em triângulo: Mestre Zénite, Silvino e Ferreira. - Aonde vamos ficar? - algum deles terá perguntado. A oferta foi recíproca e espontânea: elegeram Xabregas, por sentimento romântico e oportunidade rara, a bordo do bacalhoeiro Bissaya Barreto. - Fantástico! - Disse Zénite. - E vós tendes autonomia para que nos sintamos à vontade? - Volvia Zénite prudente. - Ele é o dono! - Tranquilizava Silvino - E que não fosse!, ele com um arême resolve tudo! - E assim pôs ponto final em qualquer indecisão. - Táxi!, Cais de Xabregas, sff -. Sorvidos na noite mal iluminada afastaram-se sem enxergar um palmo à frente do nariz, tal o embaciamento dos vidros do Mercedez Benz verde-preto de mudanças ao volante, e pela escassa visibilidade que o limpa pára-brisas deixava escapar ao ritmo de farol de navegação. O táxi seguia em cadência lenta, ensopando tudo e todos próximos à sua corrida.
Chegados ao cais de Xabregas o taxista não queria levá-los junto ao barco porque o Tejo ameaçava galgar o molhe, e o cais estava cheio de charcos. Insistiram e acabou por ceder às suas súplicas. O táxi partiu e a chuva continuou a cair com intensidade.
Subiram o portaló do navio e foram directos à sala de jantar dos oficiais, e aí se distribuíram em jeito de estado-maior, para aclarar ideias. Zénite gostou do aconchego das madeiras e do cuidado com que o verniz se exibia; havia ali um subtil ambiente Indiano que provocava algum espanto por se tratar de navio de pesca! As baixelas eram de prata e a despensa, pouco farta ainda – porque faltava um mês para zarpar, na circunstância de Setúbal depois de carregar sal -, tinha o suficiente para calar o rato ao estômago e um pouco mais.
A presença de um piano faria o local paradisíaco e daria azo a exibições esplendorosas e extrovertidas tão caras a Zénite. Mesmo assim, o mergulho na noite foi de cabeça!

Mestre Zénite desde tenra idade se afeiçoou aos barcos e à navegação fosse ela fluvial (dos Armadores: Lombudo ou Redes) embrião modelar para a produção pictórica do Essor – pelo menos!-, entre outros: um primor, assim se considera.
Codessais, sua terra de nascimento faz parte da margem fluvial, que fica bem próxima da praia da galinheira, tinha todos os ingredientes para ser um bom ministro da “marinha”, como fora Quintanilha Mendonça, não fora um chamamento genético, quase predestinação para as “Belas” Artes. Todavia, a paixão pelo desporto náutico ficou-lhe para sempre entranhada e viva, ainda que tivesse corrido Seca e Meca, onde poderia ter perdido para sempre a alma e o apego telúrico a Codessais e aos barcos.
Além da chancela genética do professor Artur Maria Afonso, a fisionomia de Zénite, exibe caracteres que oscilam um pouco entre os de Yves Montand e os de Jaques Brel, com a incrustação de uns incisivos à Tony Blair.
Zénite começou por recordar o ambiente do jantar, o sucesso das últimas exposições, nomeadamente o Prémio Nacional de Pintura (1967) e muitas estorinhas cheias de fina piada, apimentadas por criatividade loquaz; a teoria da relatividade, Agadir e “Vive la France”!
Falou do mar; lembrou um pequeno barco à vela, presumo “snipe”, quando fora estudante no Porto: muitas lembranças, muitas aventuras, muitas tiradas de bom e inteligente humor.
Zénite, romântico incurável, muito influenciável e influenciado pela “Casa Lopes” (isso já é matéria para outra estória!), falou: do bom relacionamento com o seu amigo musicólogo Morais a propósito da traição e desgosto do alfaiate Albatroz (outra estória requintada!); do episódio de baptismo de seu irmão mais novo, a quem seu pai, o poeta Afonso, daria o nome sui generis de Lereno (Lerano…, Larano..., Leiranco…, para alguns...); das orações de sapiência tidas e achadas com mestre Nená Bicha e com outros intelectuais do Largo das Freiras; dos contactos nocturnos (outra estória…) com o grande arquitecto dos costumes: Argentino Galego.
Zénite além de vegetariano era e é abstémio; já os outros lados do triângulo humano dessa noite: Silvino e Ferreira, não vos digo nada… água nem para lavar os dentes, pelo que os tira-gosto sucediam-se a bom ritmo! Assim, entre scoch, tinto da Bairrada e bebidas deslavadas de tão brancas (leite; água com limão, etc, tudo coisas que fazem inchar...) do gosto de Zénite, foi-se hidratando o corpo, com salgadinhos à mistura, e algum isquinho de peguilho!

Pires Silvino prendeu-se mais a elocuções empolgantes da literatura clássica tendo puxado da cartola de filósofo tão viva a tinha nessa altura. Resumo aquela que me ficou na lembrança:
- …Talvez o lendário Herman Melville se aproxime, também bastante, desta problemática. Não pelo desejo de vingança de perseguir a Baleia Branca que o mutilara e o lançara na aventura de obcecadamente a perseguir e matar. Apesar de tudo, não. A sua visão dos terrestres é absolutamente sincera, exacta, a preto e branco. Acab, o emblemático capitão, anseia redimir o mundo redimindo-se a si mesmo. Para Melville o mar é só um meio, um cenário onde arrumar devidamente as coisas. Não como em terra, onde um qualquer se pode esconder atrás das mais variadas formas ou cores: médico, informático, juiz, promotor de vendas, professor, locutor, pintor, escritor, economista, corretor, padeiro... Para Melville não. Só tem sentido ser homem do mar e pagar o preço disso. Acab persegue a baleia branca, um símbolo do mal, do seu próprio mal. E para destruir o próprio mal, destruindo-a, é necessário submeter-se a tudo e enfrentar todos os terrores que a vida reserva. O mar pode estar estanhado tal a calmaria ou rugindo ameaçador. Não importa porque não é mais que um cenário aonde se representa o mundo. As derrotas de Pequod transcorrem em águas exóticas, mas sempre perigosas. O mar como lugar de prova aonde os homens têm que prestar contas. E não a ninguém externo ou superior, senão à própria natureza… -.
Ferreira, por seu turno, deu um modesto e tímido aporte intelectual à reunião; muito parco em palavras, até porque a aguarela de conceitos dos outros dois mestres da retórica, tinha sido empolgante : limitou-se a dizer que não tinha medo do perigo e que a morte não passava de covarde voyeuse, tendo feito alusão, de forma reiterada, aos poemas das canções de Paxi Andion (Marinero esta tu alma teñida de mar, calada de tiniebla y temporal. Tienes la barca comprada y la morada alquilada, del tal modo eres esclavo de la mar, pescador, que el dia de la partida y soltar la ultima amarra no sabes dejar tu alma en tierra adentro varada y al final...al final es en la mar donde la vas a entregar. ) e Jaques Brel (Le Port de Amsterdam), o que já fazia um pequeno “buquet” cultural, não é?!
Zénite foi adiantando que não dominava o léxico náutico, muito menos da marinharia dos descobrimentos. Talvez por isso foi fazendo perguntas a Ferreira, do género: - Vós sois embarcadiço ou tripulante? -, - Vós fazeis parte da tripulação ou da companha? -, - Vós sabeis o que é ir pró c…lho -, coelhinhos que ia tirando cartola, aqui e ali. Bom!, tudo estaria bem desde que mantivesse bem longe a presença de Mona Lisa, e nunca abordo: tenho que fazer a inconfidência de revelar que Zénite era supersticioso ao som da Mona Lisa: não sei se pelo mistério que há no sorriso, se pelo naufrágio do Titanic… ou os dois…

Mais porque o adiantado da noite já era um marco e menos porque a conversa estivesse enfadonha, bem pelo contrário, zénite perguntou: - Dizei-me, aonde fico a dormir? -. -Boa e oportuna pergunta – comentou Pires Silvino. Sugeriu-se que Zénite ocupasse o camarote do Capitão (o mais amplo, mais cómodo e mais bem ornamentado); Silvino tinha reserva no camarote do imediato, e Ferreira, no de sempre, com beliche mais pequeno e um exíguo sofá.
Mostraram-se os aposentos e, desde logo, Zénite ficou maravilhado, até, de novo, com alguma estupefacção ao não suspeitar tanto requinte num navio de pesca. Estendeu-se displicentemente ao longo da cama, vestido. Não consigo imaginar, pela cara de alegria e bem-estar de alma, o que lhe terá passado na cabeça! Recordo, sim, que em mirada perdida deu conta do intercomunicador de latão amarelo lustrado, começando de imediato a falar e dar instruções de navegação, e outras. Para dar alguma verosimilhança ao sonho, subi à ponte do navio e da casa do leme mantive a conversação (roufenha como a que se ouve fanhosa no yellow submarine ou, se preferirem, um som nasalado de Polichinelo ) pelo intercomunicador. Zénite não resistiu em subir à ponte, não fosse ele o capitão em potência. Gostou de ver o cérebro da embarcação pesqueira, as ajudas à navegação, as cartas náuticas; olhou o envidraçamento da casa do leme e sonhou um horizonte a perder de vista, lonje do ruído e tão fértil em criações pictóricas;, teceu considerações e aproveitou para citar, sem referência a algum dos presentes, creio eu, Jorge Amado em os Velhos Marinheiros: “Vasco Moscoso de Aragão, Leão dos Mares, tome do leme e leve-nos às p…tas”.
Um sono pesado tomou conta dos três compinchas.
Já o sol tinha almoçado quando o triunvirato acordou para a vida e se levantou, e eram horas de regressar à baixa e compensar a hipoglicemia reactiva com alguma coisa quente e doce.
Prestes a deixar o arrastão, já de saída e no convés, com Zénite em olhada perdida e nostálgica pela parafernália de pesca instalada no convés, talvez a querer perguntar para que servia tão grande guincho à borda, deparou-se, não sabe se por coincidência, se por intencionalidade, com alguém bastante esbodegado, que dardejava olhares de poucos amigos e não parecia bom de assoar, que media as três aves raras que se escapuliam do seu navio, inquisitorial: não era difícil abrir-lhe o ferrolho da alma uma vez que a intenção de desagravo ou de molhar a sopa estava-lhe escrita na cara: forte reprimenda, no mínimo! Os embarcadiços furtivos, anteciparam-se com fala humilde e ingénua, apostando no efeito surpresa, a deitar água na fervura: - Bom dia contramestre! -, Este não respondeu com cordialidade ao cumprimento, limitando-se a dizer enviesadamente para o infinito: - O Boi é quem tem mão nisto, sempre! Estivemos na iminência de ir parar ao Mar da Palha para fundear na companhia da Fragata Dom Fernando, e ninguém quis saber se o Boi precisava de ajuda ou não!, Folga cabos, caça cabos, num vaivém, toda a noite: um inferno e um calvário no mesmo barco -, recalcitrava o contramestre. - Boi é quem aguenta isto… -, e repetia o estribilho até à exaustão, olhando o infinito! Bom! Também não ia longe se direccionasse a crítica a qualquer lado do já citado triângulo humano. - Até logo contramestre! - `Torna-se necessário abrir aqui um parentesis para explicar que "isto do Boi", contramestre do Bissaya Barreto, o homem de boa medra que ensinava a “pescar” cagarras por entre os Icebergues dos mares da Terranova, nada tem a ver com qualquer episódio de infidelidade ou "menage à quelqu’un", de que ele tenha sido alvo, mas estritamente com o aspecto atarracado, sebento e gordito do seu corpo que, expelindo broncos modos em vocabulário limitado, fazia jus à sua natureza truculenta, a que acabou por associar a figura taurina, por nela achar, certamente, um bom modelo para o seu auto-retrato.
Desceram o portaló e dirigiram-se à paragem do eléctrico da Carris que os levaria de regresso ao Rossio.
Já instalados no suma pau do eléctrico, a paisagem que lhes chegava através das vidraças, começava a encaixar no cenário fantasmagórico descrito por Boi; as pessoas que seguiam na carruagem deixavam sair comentários que apontavam para a réplica do dilúvio… Zénite e Cia começavam a temer que a Arraia-miúda, a do signo do mexilhão, tivesse pago cara factura com a ocorrência do insólito meteoro. Coçavam-se, apreensivos, pelo desconhecimento absoluto da tragédia que lhes passou ao lado, com a pele a salvo. Mas apenas, e só, a satisfação de saber que algo raro tinha acontecido sem lhes ter bulido minimamente com a comodidade e com o à-vontade, superava todo e qualquer remorso.
Aliás, toda essa noite navegaram mar a dentro, mergulhados num azul delirante ao encontro da ilha deserta onde se refastelaram no deserto do descanso e total libertação; como peixes à solta num mar de velas calmas, perdidos sob um céu azul imenso num mar imenso, perfumado e vivo.
Temiam, ter de se refugiar no silêncio durante anos, o que viria a acontecer, por vergonha. Não poderiam ser efusivos com amigos, porque o relato cairia no ridículo ao não transbordar humor, nem trazer qualquer suspense, nem alegrias desmedidas; só tristezas de cortar o coração, pelo peso da tragédia. E, por mais que se esforçassem em fazer cócegas, não importa a aguarela humana, seriam sempre mais mornos que excitantes. Qualquer intenção programática de fazer fornicoques não teria êxito; quando muito acção de desassombrar. Experienciaram, a catarse e o êxtase, a memória, o cheiro e a musicalidade de momentos prazenteiros salpicados de sentimentos extremos de alma que, a desvanecer-se em lume brando, lhe prolongarão infinitamente o paladar dessa sabatina, aquando do desembuçar da miríade de pilhérias, escultura a canivete, esculpida na árvore dessa noite de Baco, invernosa e diluviana, de alienação total… para a eternidade!
O eléctrico parou no Rossio, compraram avidamente um jornal que sobrasse, ainda, nas bancas e dirigiram-se ao Café Nicola, para o pequeno-almoço; seriam as três horas daquela tarde cinzenta e triste.
- Café com leite e torradas!-, pediram em uníssono! Estenderam o jornal em cima da mesa e o que liam não lhes dava a verdadeira dimensão da tragédia: que afogou cerca de cinco centenas de vivos. A realidade nua e crua chegaria de forma esparsa, a conta-gotas e mais ou menos filtrada; nos seguintes extractos da época:

Comércio do Funchal : «nós não diríamos: foram as cheias, foi a chuva. Talvez seja mais justo afirmar: foi a miséria, miséria que a nossa sociedade não neutralizou, quem provocou a maioria das mortes. Até na morte é triste ser-se miserável. Sobretudo quando se morre por o ser»...

Ao Mestre e ao Diabo (não lhes acontece um…) pinta-lhes a sorte ao retardador!

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Homem dos sete instrumentos

A manhã acordara com nevoeiro que se espreguiçava, displicente, sobre a cidade, vindo do rio. Detrás das vidraças da porta da sua loja, aquecido pelo fervilhar de ideais, mais que pelo calor emanado das fracas brasas afundadas em braseira de cobre e abafadas em papel de prata, Saramita, como Estragon e Vladimir, olhava o movimento da rua, mergulhado em pensamentos, à espera de alguma coisa ou de qualquer surpresa que lhe cortassem o tédio.
Tummm-tummm-tummm...tum-tum-tum-tum! Vai ser representada a peça a bingala… - Não. Não vai! - Murmurou para consigo, Saramita, passado o momentâneo devaneio, acordado ante a austera realidade que obriga a esfregar de olho. "Enfim!", disse ele, "fico-me, pelo entreabrir da cortina a sonhos e projectos para um dia que começa!" Tudo isto fora rumor de Sibila, Quinhas Pomba, quem sabe, que lhe sacudia a razão de volta ao mundo real .
Era uma vez, um figurino e astuto figurão, que dava pela nomeada de SARAMITA, a quem José Manuel Fontes Mesquita cedeu a identidade. Com nomeada num círculo territorial com diâmetro vertical de Tamaguelos à Várzea e diâmetro transversal para cá e para lá do rio Tâmega, tocando Segirei e Serraquinhos, entre outras aldeolas. Poderá, à primeira vista, parecer pequeno este universo onde Saramita era constado, sobretudo àqueles que nunca o calcorrearam a pé: que ignoram, que dava vida a centenas de pardais, tentilhões, estorninhos, codornizes, perdizes, melros, pintassilgos, cucos, milhafres, e outros fidalgos do voo; outras tantas flores; outras tantas árvores de pequeno e grande porte; outros tantos frutos; outros tantos vegetais... Saramita sobressaía aí com acentuado pendor político-social. Avesso à cor cinzenta, escolhia do arco-íris o vermelho, cor com que gostaria de tingir o tecido da bandeira hasteada na Edilidade, flamejando livremente quanto o vento é livre. Neste alinho libertário, pedia aos deuses um asteróide que acabasse de novo e de vez com os “dinossauros” do regime, dirigindo ao Céu votos ardentes a fim de que qualquer peste deles fizesse delícias.
Desconhece-se a origem do pomposo pseudónimo que escondia José Mesquita. Talvez corruptela de Semíramis...!? Quem sabe? O que espicaça assaz a curiosidade a vasculhar um pouco mais a origem, na suspeita de que Saramita era bem capaz de morrer de amores pela deslumbrante e voluptuosa rainha da Assíria, por quem se interessava e procura dados biográficos, com arrebatamento! É muito provável que a informação mais fiável e pormenorizada esteja confiada aos arquivos sicilianos do “Clube da Sola”!
Este nosso conterrâneo, Saramita, foi, também, uma verdadeira fonte de inspiração, um manancial de situações burlescas. Um talentoso e nato fazedor de estórias a esbanjar graça e carregadas de maliciosa inteligência. Um irrequieto. Um inconformado. Um safado. Um andarilho por terras do Brasil. Um iconoclasta. Um actor: “dos melhores amigos as maiores desfeitas”, dizia ele a propósito de um incêndio que, por acaso, ateara em fazenda própria, coberta pelo seguro!.. Ou “eu já estou do lado de cá, agora que se f...dam"; ou “para comer qualquer partido serve!...” . Um autor de peças teatrais: “vens ou ficas?...” Um topa a tudo, como diria o seu melhor amigo, Castelo Branco, simultaneamente o seu braço direito.
A relação com o feminino foi de um fervoroso anti-misógino: propenso a encantamentos, ainda que, não fora a educação e os costumes machistas, expressava um cavalheirismo encapotado, dado a assobios trinados de tirolês, recorria a figuras e acções românticas, à arte do gracejo, arredando com isso alguns concorrentes, enfadonhos, empoados e bem-pensantes das redondezas; quando o seu coração tinha necessidade de reconforto e novidade e se dava a devaneios quiméricos que já vinham da adolescência. Nem mesmo a epectase o fazia assustadiço: um garanhão!
Da polícia também não era figura muito grata. “Que melro!” Diziam as autoridades. “Um passarão de respeito.”
A análise retrospectiva do multifacetado cidadão Saramita, leva a concluir que, nele, a inteligência emocional tocava a plenitude.
Um furacão na resposta viva e cáustica que arremessava ao adversário, ou com que se esgrimia na praça pública ou aquecia as tertúlias. Granjeou prestígio e capitalizou o respeito dos opositores que varria com um verbo demolidor e emudecia sem piedade. Outros mais pudicos ou incautos enrubesciam mais que um Porto ruby. Colheu a amizade dos acólitos com quem repartia “as canas” que apanhava.
Castelo Branco, o amigo do peito, vem a talhe de foice, foi o único candidato a entrar para a banda militar, não conhecendo uma única nota de música, mesmo do tamanho de um carro, mas, a qualidade de “orelhudo” e o talento, eram tais, que lhe permitiam reproduzir à primeira qualquer música ou canção acabada de ouvir. Esta aptidão, entre outras, só conhecida ao Toninho das Pedras, terá sido uma bênção para muitas “performances” do herói Saramita, a duo.

Esta curta estória - Saramita tem muitas, qual delas a melhor!... - Ajusta-se à etapa desta escrita, ao mesmo tempo que lança aqui uma lufada de humor.
Encontrava-se o nosso herói à porta da sua pastelaria, empresa não muito lucrativa, - teve várias lojas, em variados ramos e em diferentes locais da cidade -, perscrutando em toda a linha o movimento da Rua Direita, com um pensamento dominante: isto está uma pasmaceira; hoje não acontece mesmo nada. Será que hoje não acontece nada? Enquanto este pensamento se entrecruzava com outros da mais diversa índole, surge um dos amigos do dia-a-dia, e das tertúlias, quase vizinho relativamente à pastelaria "Rico Folhado". Tratava-se, nada mais, nada menos, que Vespasiano Lampaça Paranta Júnior, o Director do jornal A Voz do Povo, homem alto, calmo, de visceral bonomia, em franco contraste com o nosso Saramita, a quem os caluniadores atribuíam, também, a edição de um outro jornal: “A Rijeza”, que alguma memória recorda um Editorial, não sei se o primeiro, não sei se o último: “Gatunos, Polícias e Azeite!... O Director do Voz do Povo chegava com o olhar apagado de um homem descontente consigo e disse ao aproximar-se de Saramita: “Mesquita, só me acontecem desgraças; acidentes é cá comigo”. “É assim tão bicudo o problema?" - pergunta Saramita calmamente, ao mesmo tempo que antevê aqui um lenitivo para a quietude dos acontecimentos -. “Imagina só!: tenho que imprimir o jornal e não consigo encontrar petróleo nesta cidade para fazer accionar a impressora.” “A imaginação não te esquenta o cérebro ó amigo!" – retorquiu Saramita – “Então não tens todos esses candeeiros da iluminação da cidade para colher petróleo?” - enquanto falava, Saramita, enriquecia a sugestão com um gesto manual, que exercita os quatro dedos da mão direita, para os dextros, em movimento sequencial estudado e ensaiado desde o neolítico pelo homo sapiens, para explicitar com propriedade a acção em causa -. “ Quererás dizer: roubar petróleo! O que expõe e compromete pública e seriamente o bom nome e o ofício deste humilde mas honesto cidadão, para além da dificuldade em executar tal... acção!” “ Não sejas atadinho nem tímido, queres que te ajude a ultrapassar a dificuldade em que estás metido, rápida e facilmente? Tens aí quatro patacos à boa vida - que eu cá nem um para mandar tocar ou cego -, e resolvo-te já a encrenca que te atulha até ao pescoço?” “ Não faço a mínima ideia de como vais fazer esse trabalho (...) sem te expores ao enxovalho se por ventura te sais mal da obra. Uma coisa é certa: preciso mais duma lata de petróleo do que pão para a boca, nesta altura; toma lá os quatro patacos.” “ Vês além aqueles quatro garotos?” - Apontou-lhe Saramita ao amigo - “Eu já os ponho a trabalhar.” - Deu um assobio soooviiisst e acenou com a mão para se aproximarem. Os garotos aproximaram-se carregados de interesse e curiosidade e perguntaram: “que quer mou senhor?” “Quereis ganhar quatro patacos?” – perguntou-lhes Saramita - “ Hãn! Queremos” - responderam os garotos com os olhos arregalados enquanto se coçavam por tudo quanto é sítio, digo derme, pela acção que a excitação e a vergonha provocam na pele -. “ Então levai esta lata e trazei-a cheia de petróleo, que ireis gamar” - aqui Saramita chamando já os bois pelos nomes – “a quantos lampiões de iluminação encontrardes até que a lata fique cheia, ála!” E lá foram os garotos à prospecção do petróleo. “Como vês foi fácil!" - explicou Saramita com ar persuasivo - "Espero que te seja igualmente fácil por cá fora o hebdomadário a tempo e horas, com o esperado monstro do dia e bastantes açoites em todos!” “Olha, por falar nisso", - adiantou Vespasiano - "tenho que ir andando enquanto não chega o petróleo: estou atrasadíssimo e sem ter ainda escrito o artigo de fundo, que é meu costume anunciar em caixa alta e, pior ainda, nem sequer pensei o tema, tão preocupado que tenho andado com a escassez do petróleo.” Saramita ficou de repente ensimesmado com esta confidência, a par de que corria o risco de não poder ler algo interessante que lhe valesse uma boa dose de zombaria! "Era só o que faltava" - suspirou Saramita - “Oh Lampaça! nem parece tua: tu que fazes um escrito com a mesma facilidade com que te lamentas! Tu, que sempre dizes ver no presidente um santinho sensaborão, de ar palonço ou fingido, que se agacha ou intimida aos tiques inchados de autoridade do poder central e da polícia politica; o mesmo presidente que lacrimeja ou se exalta com pregadores barrocos, babado com o esplendor da grã-cruz, do pequeno poder pessoal e da liderança musculada e sisuda, até sacripanta; o mesmo que se embrulha em serrubeco cinzento no inverno, e veste terno azul empastado de suor pelo garrote da gravata e o sobreaquecimento pós-prandial…no verão! Amigo! Tens hoje a carola pouco arejada! Que melhor mote poderás tu ter para o artigo que dar porrada na Câmara Municipal por falta de luz nos candeeiros!”

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Aquele que nunca pecou que atire a primeira pedra!...

Quem venha da Madalena, ou, simplesmente, tenha ido passear saborosamente o olhar pelo curso do rio Tâmega e toda a envolvente, e acabe de atravessar a velha Ponte Romana, ao afluir ao Largo do Arrabalde dá de caras com um emblema: uma Casa que, de Saúde, não se ofende com eventuais desígnios de qualquer enquadramento na Rua do Postigo das Manas. Edifício com varanda longa, arqueada, com protrusão para o referido Largo a piscar o olho em angulo bem aberto desde a referida Ponte até à Rua Direita, dando-se em orgulhosa graciosidade, atenta ao fervilhar de ideias e acções; de arquitectura a cair no goto estético do querido Engenheiro Bôlas, não sendo o projecto da sua lavra, convenhamos! Se a visão já for mirrando, cocos por nozes, poder-se-á tomar como referência a fatia de bolo do casario que separa a Rua Direita da Rua de Santo António, e olhar à esquerda! Lá estará, também, emergindo do telhado da varanda, uma mansarda a espreitar e a perscrutar a azáfama e o murmúrio do Arrabalde.
Arrabalde, esse Ex-Libris, onde tudo se entrecruza: Arqueologia, Banca, Comércio, Farmácia, Justiça, Património, Religião (pelo menos em tempo de procissão) e Saúde! Um cenário a alvitrar a Nadir Afonso para a respectiva inclusão na sua produção pictórica de pontes ou cidades com história.
Já com os olhos cheios de imagens e sentimentos, presentes e passados, vamo-nos inserindo no Centro Histórico do Burgo, subindo a Rua Direita (a mais directa ao nosso destino); não é recta, mas reivindica grande parte do património histórico e arquitectónico da menina dos olhos de Trajano; prossigamos dispostos a alcançar a “Sociedade”: é lá que se situa o epicentro deste relato escatológico.
Se a caminhada não for apressada, como convém, haverá tempo para fruir o encanto das varandas em madeira, de arquitectura deliciosa, mais ou menos floridas, mais ou menos embelezadas, que parecem estar à espera do apreço e da saudação de quem passa, retribuindo com o regalo e o consolo dos matizes das suas cores.
Tempo para lembrar o som da sirene e da sineta das ambulâncias que aí passavam em chinfrineira pungente, curvando em duas rodas ao encontro do velho hospital no mais curto espaço de tempo possível. Uma ou outra vez, já agora, a autobomba dos "B.V.", subiu essa artéria citadina, acelerada pelo planger de um sino e a condução temerária mas segura de Rolando, empanturrada de soldados da paz, de porte garboso e capacete metálico amarelo faiscante, com emblema de fénix (penso...), lotação a sobrar para os estribos depois de preenchidos os lugares sentados em banco individual e ao ar livre, em excitação crescente, abnegadamente preparados para o combate às chamas.
Tempo, ainda, para alguns - ponho o dedo no ar - que aí viveram, aí brincaram, aí conviveram, aí mourejaram, poderem actualizar mudanças nos usos e costumes.
Por aí esteve sempre por perto o eflúvio do néctar dos deuses que criava corrupios de gente masculina, dando força ao velho aforismo: quando bebe um português bebem logo dois ou três... "Central", o santuário dessas romarias...
Fantasmas terão habitado a Rua Direita, mesmo em frente à casa que viu nascer o Coronel Bento Roma, e ao Lar onde sempre morou D. Hermínia, que mimou alguns desses espíritos com a fofice do colo.
A mesma Hermínia a quem um galã dedicou o piropo: - H. tens um traseiro que mais parece a popa de navio -; Hermínia não se perturbou com a graçola dando costas ao aprendiz de galanteador; apenas o olhar com o rabo do olho, e meigo, disse: - navio! e de guerra! - puumm!... -; ah, ah; meu filho ainda não tens ronha…, e já podia ser tua mãe...- disse carinhosamente. O autor do galanteio nunca terá revelado ao pai o desabafo de Hermínia.
Continuando o passeio, aqui onírico, vamos encontrar a “Eléctrica Moderna” no nº65, gerida pelo empresário Fanhonha, que durante anos e anos se ocupou do som - altifalantes de campânula e respectivos amplificadores -, para anunciar tudo a todos, quer no campo de futebol, quer nas verbenas, quer nas festividades citadinas, quer no natal.
A propósito de jogos de futebol, é célebre a figura de linguagem imputada a Fanhonha na ocorrência de empate: “- Desportivo, tantos..., os outros, o mesmo...”
Nunca é tarde para prestar um merecido agradecimento a Fanhonha, e cá vai: este empresário da respectiva "Eléctrica Moderna", além de emitir sábios conselhos, sempre emprestou as suas aparelhagens sonoras ao conjunto musical “Tigres”, a custo zero: bem haja!
Outras lendas dessa paróquia pairaram aí como fantasmas, à espera de oportuno reconhecimento.
Continuando a nossa caminhada de ladeira, seremos forçados a entorpecer momentaneamente os sentidos para resistir ao apelo e provocação do “Pasteleiro” e do vinho Três-Marias; dobramos a esquina daquela que fora Cooperativa, olhos nos olhos com o escritório do causídico Domingos Costa Gomes, e inflectimos para a praça da República; o pelourinho indica-nos que chegámos ao nosso destino: “Sociedade”, e entramos.

Fazendo jus ao título deste conto, quase todos teremos por certo que o ser humano é complexo em tudo que lhe diz respeito. A conduta não foge à regra, toca mesmo o transtorno ciclotímico; os altos e baixos no humor, na carteira, na carreira, na saúde, são mais a regra que a excepção; constatação verificada através dos tempos, de elevada estatística. Parece assentar como uma luva a clarividência de Shakespeare, na sua reflexão sobre os viventes: - "O azarado não tem outra medicina que não a esperança"-.
Por isso mesmo, ninguém vai estranhar que algum cirurgião se desse a melhor desempenho e êxitos sobre a luz fria, implacável, e atenta da luminária, sempre que Dionísio lhe aquecesse as veias e o átrio da criatividade.
Sentado em cadeirão, vamos encontrar um ilustre discípulo de esculápio lendo o jornal: o mesmo que bebia e apreciava os ensinamentos de outros sábios mordidos pela seiva da serpente: “o médico que só sabe medicina, nem medicina sabe.”
Sabia-o e praticava-o. Tinha mais preceitos que preconceitos. Sentia por perto Shakespeare.
Dr. A, lia os periódicos: indiferente a quem aí se entregasse de igual modo a leituras, quem entrasse ou saísse; alheio, pois, a todo e qualquer comentário que emergisse do ambiente envolvente. Não dirigia a palavra a ninguém enquanto se entregasse ao deleite da leitura e ao refúgio no esquecimento das más rosas…Respondia a cumprimentos de cortesia quando confrontado directamente e na situação oportuna.
Essa pacatez, essa entrega ao silêncio da leitura e meditação não se interrompiam por nada. Nem mesmo a emissão, de flatos, quer singulares quer em salvas, sonoros e relativamente frequentes.
O Presidente da "Sociedade", pessoa de elevada cotação social, terá observado este "destempero" anti-social, que o encolerizava, mais e mais, com o correr dos dias até pela densidade estatística dos eventos...; e já não iria aguentar por muito mais tempo aquilo a que já sentia como ultraje, um enxovalho que abanava perigosamente o prestígio de Chefe da Casa.
Prenhe de revolta e raiva, o Presidente preparou, com apuro, o órgão auditivo: lavagem cuidadosa nos "Enfermeiros Reunidos", para que nenhum cerúmen ou outra impureza impedissem uma audição exacta e atempada; em suma, considerou um cenário de duelo para desagravar ofensa grave, a que só faltaria a escolha da arma, o padrinho e a etiqueta; e, a esbanjar coragem, esperou em vigilância activa!...
O rastilho para o desagravo ateou-se facilmente, com seria de esperar. Com o motivo produzido e no ar, disse, inquisitorial, o Presidente:
"Dr A, há já algum tempo que os meus ouvidos são desagradados e enxovalhados pelas suas atitudes escatológicas, tão inconvenientes e tão atentatórias ao bom nome e reputação desta Casa: espelho e orgulho do que de mais distinguido e nobre esta cidade teve e tem no seio das suas famílias.” - E continuava, lançando um olhar furibundo: “Além de mim, outras pessoas honradas, entre elas distintas Senhoras, engrossam o rol de denunciantes dos seus arbítrios pueris, que roçam a boçalidade e que não se adequam a esta Casa e muito menos se compaginam com o seu grau académico e a sua posição social. O senhor Dr. sabe perfeitamente que essas “coisas” têm lugar próprio para a sua produção, aqui bem perto, aliás; reprimir, ainda que momentaneamente, actos rebeldes ou censuráveis pela grei é um dever, uma obrigação que devemos respeitar até ao limite das nossas forças; e não deixar ao arbítrio de qualquer víscera mal educada e impertinente comportamentos execráveis, a toda a hora. A sua irreverência, Dr.A., mais que fazer-me estourar de riso, repugna-me e leva-me a paroxismos de raiva. Tomo a liberdade de lhe recordar solenemente: aqui ainda há pessoas decentes. "Dr. A. não precisou de grandes elucubrações ou álibis (não obstante possuir atestado médico para o referido acto escatológico); respondeu em tom irónico e pacificador: - E indecentes! – Nova ventosidade pôs termo ao duelo... e ponto final no patuá; e o regresso à leitura prazenteira.